Para aliviar a minha dor, gostava de partilhar um pouco sobre este sentimento. Esta senhora presente na imagem é a minha eterna e querida Avó, que para mim foi como uma Mãe, foi a pessoa que mais valor me deu, que sempre acreditou em mim, e sempre me deu força para viver a vida, porque Viver não é nada fácil e a dela não foi excepção, mas mesmo assim, sempre soube ter força e coragem para ultrapassar e lutar contra muitas barreiras. Apesar de ela ter estado muito doente sempre soube ter uma palavra amiga, um abraço, um beijo para me dar, por coisas que comparado com o que ela estava a passar, eram insignificantes.
Depois de tantas visitas que lhe fiz, nesta fase final, em todos os momentos que estive ao pé dela, tive sempre a intenção de lhe mostrar como a amava, aproveitando cada momento como se fosse o ultimo.
Numa destas visitas e por ela já não ter força, entornou um boião de fruta em cima do cobertor da sua cama, e eu fui logo limpar, e ela aproveitou a minha proximidade enquanto lhe limpava o cobertor e deu me um beijo que o sinto até agora. É esse beijo que guardo no meu coração e no meu pensamento.
Dia 09Fevereiro, que dia triste.... Acordei com uma sensação de que não mais a iria ver.... Apesar de eu e a minha filha estarmos ambas doentes, decidi telefonar ao meu marido para me levar ao IPO-Porto, onde estava a minha avó. Nessa tarde quando lá cheguei fui de imediato ao quarto da minha avó e houve uma coisa que me assustou muito, pois não vi qualquer reacção nela, mas após me ter aproximado do seu ouvido e dizer-lhe: "Avozinha, sou eu a Sílvia," dela soltou-se um grande sorriso e de seguida disse me como pôde: "Já estou cansada de lutar" Ali senti logo que a ia perder, pois ela cansou-se de tanto lutar. Depois de a abraçar e acarinhar muito, mas sempre sem grande reacção da parte dela, vim embora de volta para casa, e ficou lá no IPO a minha mãe para passar a noite com ela. Por volta das 18h40 comecei a sentir-me estranha, e constantemente perguntava à minha mãe , se havia alguma reacção da minha avó ou se estava na mesma... E sim... Estava... Às 20H20 recebo um telefonema da minha mãe e do lado de lá só ouvia gritos, e foi assim que me apercebi da dura realidade que me estava a acontecer. Fui a correr para o IPO e quando cheguei ao quarto da minha avó, ela já não respirava... e eu abracei-a com tanta força como se não a quisesse deixar ir... E no fundo não a queria deixar ir, eu não queria que ela sofresse mais, mas também não queria que ela me deixasse. E agora... Quem vai gostar de mim daquela maneira, quem me vai acarinhar da mesma maneira que só ela sabia fazer? Oh meu Deus sinto tanto a sua falta...
Hoje dia 11 foi o seu funeral onde a vi pela ultima vez. Não sei explicar o que sinto, sei que o seu sofrimento acabou, mas sinto umas saudades dela como se ela já tivesse partido há muito... não imagino a minha vida sem ela. Sei que a dor dela acabou e suponho que esteja num lugar melhor a olhar por mim e a proteger-me e de certeza que ela não queria que eu sofresse como estou a sofrer, mas há coisas em que não mandamos, como na Dor por exemplo.
A minha avó além de me ter deixado varias lições de amor, de carinho e de vida, deixou-me um par de brincos de ouro que há 50 anos que os usava todos os dias... Eu uso-os desde hoje nas minhas orelhas e fico ainda mais linda com eles, pois tudo o que era dela era lindo e assim, é uma maneira de a sentir sempre perto de mim. Até agora tinha um anjo na terra, agora, Ela é o meu anjo no céu.
Dedico te esta canção avó:
Mãe, o meu dia chegou ao fim,
sinto uma paz dentro de mim
e estou feliz no meu cansaço.
Mãe, por tudo o que eu fui e dei
leva o meu obrigado ao Pai,
enquanto fico em teu regaço.
Aqui vou encontrar o que procuro,
mais energia para dar e para ser.
Mãe, confio em ti és meu seguro
e sinto bem que tu me estás a acolher.
Adeus, até um dia em que nos encontraremos pois tenho a certeza que quando morrer estarás à minha espera.
Sílvia A. Areias Silva Neves